Giselli Duarte

Ensaios

Não volte ao passado. Não há mais ninguém lá.

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Mão adulta segurando uma fotografia antiga sobre uma mesa de madeira, ao lado de uma xícara de café e luz suave de fim de tarde.

Tenho o hábito de voltar. Uma música, uma fotografia antiga, um cheiro qualquer ou uma tarde de domingo já são suficientes para me levar para algum lugar que deixou de existir há muito tempo.

Lembro da casa da minha avó, do café sendo passado no fim da tarde, do cheiro de bolo vindo da cozinha. Lembro das conversas com os amigos na rua, sem hora marcada, sem precisar combinar nada. Bastava sair de casa e sempre havia alguém conhecido por perto. Naquela época, eu não sabia que estava vivendo coisas que um dia sentiria falta.

A gente raramente percebe o valor de uma coisa enquanto ela acontece. Um domingo parece apenas um domingo. Uma conversa parece apenas uma conversa. Uma pessoa parece alguém que estará ali no próximo encontro. Só depois entendemos que algumas coisas estavam acontecendo pela última vez sem que ninguém soubesse.

Quando volto pela memória, encontro tudo como deixei. Por alguns segundos, as pessoas ainda estão ali, as vozes continuam familiares e a tarde parece intacta. Então lembro que não está.

Minha avó se foi. Os amigos cresceram, mudaram, seguiram outros caminhos. Algumas pessoas partiram, outras continuam por perto, mas já não são as mesmas. Eu também não.

E talvez seja essa a parte mais difícil da nostalgia. Mesmo que fosse possível voltar, eu não encontraria o que procuro. O passado pertence também à pessoa que éramos quando o vivemos. Não existe maneira de separar aquela época das pessoas que fomos.

Talvez seja por isso que tantos vídeos criados por inteligência artificial tentem reconstruir o passado. Ruas antigas, casas, famílias reunidas, crianças brincando, cidades que já desapareceram. Existe alguma coisa nessas imagens que parece tocar uma saudade coletiva.

Porque tudo parece ter mudado.

As cidades estão mais parecidas. As casas, os carros, os comércios, as vitrines. Até as cores parecem ter diminuído. E passamos o dia inteiro diante de telas recebendo notícias, imagens, opiniões e acontecimentos de todos os lugares. É tanta coisa chegando ao mesmo tempo que, às vezes, tenho a impressão de que o mundo ficou mais superficial e mais cinza.

Sinto falta das imperfeições. Das fotografias tremidas, dos móveis que não combinavam entre si, das casas que tinham a personalidade de quem morava nelas. Sinto falta de reconhecer as coisas, de saber quem estava do outro lado de uma porta, de ouvir uma voz e saber imediatamente de quem era.

Mas sei que não estou procurando exatamente aquele tempo. Estou procurando a sensação que existia nele. A sensação de que algumas pessoas estariam ali no dia seguinte. De que certas coisas continuariam acontecendo. De que havia tempo para ficar conversando depois do café.

Só que o tempo passou.

E talvez eu precise aceitar que algumas lembranças existem para serem lembradas, não repetidas.

Porque enquanto fico procurando aquelas tardes ou manhãs, outras estão acontecendo agora. Pessoas que fazem parte da minha vida hoje também podem se tornar saudade um dia. Uma conversa aparentemente comum pode virar uma lembrança preciosa. Uma tarde qualquer pode ser, sem que eu perceba, uma daquelas que vou querer visitar daqui a vinte anos.

É estranho pensar nisso.

O presente também está desaparecendo enquanto acontece.

Por isso, quando sentir vontade de voltar, talvez eu precise apenas lembrar: não volte ao passado. Não há mais ninguém lá.

Mas ainda existe alguém aqui.

E essa pessoa merece ser percebida enquanto ainda está vivendo.

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